guilherme na linha – carlos bressan

escada-rolanteOntem tive um dia de pressa. Pressa para escrever. Pressa pra terminar. Pressa pra café, banho, andar e chegar e também pra voltar e correr, e todo o resto da pressa de um dia de pressa. Porém, ontem a rotina parecia me querer calmo.

A rotina se esbarrou comigo para que eu a olhasse com calma. E parasse. E a visse. Talvez, respirasse. Só que eu tinha tanta pressa. É, pressa. Mas tanta mesmo, que mesmo com todo o empenho da rotina, parei pouco. Bem pouco. Parar é assim tão complicado?

Fui entregar um projeto no centro. Três cópias. Três envelopes. Três anexos. De tanta pressa só escrevi Carlos, naquela linha onde devia ter posto o nome completo. E nem preenchi se sou macho ou fêmea. A pressa ignorou nome ou gênero. Muitas vezes também ignoro. Agora digo: nessa hora do dia, eu já tinha encontrado os dois primeiros Guilhermes. Vou falar de um.

O primeiro Guilherme tem uns quarentas anos. Anda de roupa social de segunda linha. E tinha muito mais pressa do que eu. Na descida da escada rolante. Guilherme foi travado por alguém, ele diz então: licença. E como nem sempre alguém escuta o que dizemos, nada aconteceu. Guilherme disse então outra vez, licença. Mas dessa vez disse com gesto de raiva e corpo de raiva e voz de raiva; a raiva todo alguém escuta. Daí Guilherme pode andar. Encontrei-o um pouco depois, Guilherme lá esperando ainda o metrô. A pressa não serviu de nada para Guilherme.

Saí do centro. Caminho. Tenho pressa. E vou para o metrô. Sempre mais escada, e mais portas e mais catracas. E apitos e gentes bastante gentes. E demora. A pressa percebe tudo isso. E eu desço e subo e vou e então: Encontro Guilherme e meu coração para e eu paro e eu respiro e sinto em minhas mãos o coração de Guilherme bater. Antes de tudo vou dizer, Guilherme não se machucou.

Guilherme tem no máximo cinco anos. Guilherme está de mãos dadas com a mãe. Guilherme desce a escada rolante. Sigo atrás. Guilherme brinca. O pé de Guilherme se prende na escada. O desespero resolve agir. A escada para. Eu seguro Guilherme. Ele grita. Eu digo para ter calma. A mãe está com ele. Foi preciso Guilherme para eu parar. Soltamos o pé de Guilherme. Eu fui. Guilherme ainda chorava. Na mochila ainda tive tempo de ler: Guilherme.

Como falta o segundo Guilherme falo dele agora. O segundo Guilherme pede licença apressado para uma senhora. O segundo Guilherme quer embarcar no trem. A senhora travou a porta. Ela não anda. E o segundo Guilherme tem presa. O segundo Guilherme é da minha idade. O segundo Guilherme precisava entregar um projeto. E queria depois comer e não ter dor de cabeça o resto do dia. O segundo Guilherme sou eu.

E naquelas vias, o segundo Guilherme viu um Guilherme mais novo chorar. E viu também um Guilherme mais velho agredir. Agora, esse Guilherme do meio precisa escolher uma rotina:

– Escolha com calma, Guilherme.

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